Domingo, 28 de Junho de 2009

O Medo e Suas Peculiaridades

Desde pequena o medo sempre esteve presente na minha vida. Acredito que eu não seja parte de 0,3% da população mundial, mas de quase 99,87%. Ou seja, seguramente, não sou uma exceção. Mas como nunca fiz um estudo comparativo, sei dizer sobre mim, meus medos e suas peculiaridades.

Meus medos fazem parte de um coletivo, de uma massaroca mental sem algum medo específico em si. Terapia? Não, obrigada, tenho medo. Quando eu era pequena - pela minha memória, que, perdoem-me, receio eu que esteja cada vez mais alterada e estranha - eu tinha a cada ano um objeto de medo bem específico. Em um amo eram vampiros, no outro, esqueletos e assim em diante. Eu, ao me deitar para dormir, pensava "será que quando eu tiver 10 anos terei ainda medo de esqueleto?" meus medos tinham prazos. Prazos que, pelo que me consta, eram cumpridos. Aos 10 anos eu não temia mais esqueletos, naquela idade eu já estava mais afetada pelo que parece real ao nosso redor: ladrão. Tinha medo de ladrão e tinha a ilusão de que se eu fizesse um discurso bonito, poderia salvar não só a mim, minha casa, meu cão e minha mãe, mas a todos que teriam, supostamente, os que haviam escolhido pelo mal caminho. O sonho americano do discurso do final do filme, que salva a pátria e toda a nação.

Toda noite, o discurso ficava mais homérico. Aos 10 anos, eu escolhia argumentos realmente "viáveis" para convencer um ladrão de que assaltando ele não teria o mesmo prestígio de ser um trabalhador honrado com um salário mínimo por mês. E não era só conscientemente que os discursos se discorriam. Eles vinham também em forma de sonhos, nos quais eu aparecia como Joana D'arc e tinha o objetivo de transformar a sociedade. Ok, sonhos de heroismo a parte, meus medos continuaram sempre sendo os burgueses e usuais.

Na adolescência, o medo da aceitação. A feiura me incomodava, me incomodava demais. Eu não só era a mais branquela da escola, como também era vesga e tinha meu rosto em uma espinha. Mas calma, não se assustem, nunca fui excluída de grupos por causa disso. Sempre tive muitos amigos e conseguia - tranquilamente - ter um grau de popularidade; logicamente, não muito com os garotos. Mas essa é uma outra história, que resulta em um final feliz com tratamentos, cirurgias e auto confiança - quase - recomposta.

Hoje, aos 23 anos, virei uma pessoa extremamente medrosa. Voltei a sentir meus medos infantis e voltei a dar prazo aos meus medos. Medos infantis de quê? De ataques zumbis, conspirações alienígenas, conspirações governamentais, síndrome de Show de Truman, fantasmas, etc. Além desses, também sou assombrada diariamente (ou melhor, noturnamente, uma vez que os medos aparecem à noite) por medos de "nossa época" como doenças, sequestros, assaltos, solidão, perda de emprego e essas coisas que todos já estão cansados de temer também.

O fato é que, neurótica como sou, alimento diariamente meus medos. Dando um potinho de ração todas as noites para que eles possam continuar a me afligir para sempre. Os discursos e argumentações para salvar - não mais ao mundo mas a mim mesma - voltaram também. Hipóteses confirmadas por fatos aleatórios, barulhos e flashes que acontecem na minha cabeça, memórias deturpadas, assombrações diárias e úlcera. Tudo isso faz parte dos meus medos.

Alguns diriam que eu penso demais. Mas se ser é pensar, e pensar é ter medo, talvez o medo seja o sentimento mais íntegro do ser humano. E, filosofias a parte, deixo aqui meus pensamentos, para que não me assombrem daqui a meia hora quando eu for dormir.

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Vila Madalena - Vila Monumento

Muita fofoca no ponto final da linha Vila Madalena - Vila Monumento. Duas mulheres insandecidas riem e enlouquecem ao comentar a loucura de alguém. "Ela diz que mora em Higienópolis." grita "HIGIENÓPOLIS! Eu trabalho com judeu e sei o quanto é caro ter um apartamento em Higienópolis." a outra reforça "Higienópolis? Ela mora é na Barra Funda! Perto da minha casa."

Chega a terceira mulher, com voz tranquila e sotaque mineiro. Sem hesitar, já pergunta "Ah, essa é a senhora que pega sempre o ônibus aqui, né?" As outras duas, quase em coro "É, aquela louca! Só mente!" a calminha, assombrada, diz "Mas, gente, não pode ser, ela me contou os detalhes do casamento do filho com tanta precisão." de repente, a mineira já está íntima das outras duas e também do fiscal da SP Trans, que não pode deixar de soltar uns comentários ácidos acerca da mentirosa.

O grande problema, segundo elas, é que essa senhora pega para Cristo qualquer um que sente-se no ponto de ônibus e pegue esse trajeto. Para elas, o motivo de riso está no fato de que essa senhorinha inventa histórias para provar que faz parte de uma outra "casta" social. Conta sobre como o filho - que, segundo elas, trabalha de segurança em algum supermercado em Pinheiros - casou com uma médica renomada e foi morar em um duplex em Higienópolis. Mas o mais problema de todos é que a senhora teima em dizer que o filho dela trabalha na TV.

A outra, em êxtase frenético, por poder compartilhar veneno com as parceiras de ponto de ônibus, entra no espírito de xingar sem pudores a pobre velhinha que não cansa de dizer que o casamento foi coberto pela Caras. Riem, sem dó, chamabdo-a de louca mentirosa. O fiscal, no entanto, a compara a seu primo de Pernambuco, doido de pedra também.

O ônibus chega, todos suspiram de tanta risada. Entram no ônibus e se silenciam, pensando em segredo como desejam comprar um novo iPhone para poder passar o trajeto todo fofocando. Mas, pelo menos desta vez, aquela velha mentirosa que a todos irrita não está lá para compartilhar seus delírios capitalistas.

Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Conto de Pessach

O texto a seguir, supostamente, foi publicado em algum jornal da comunidade judaica. Até hoje não sei se isso é verdade ou mito.

O cheiro de chrein e de pepino azedo. Alguma carne no forno e o desespero antecedente ao jantar. É data comemorativa, mas São Paulo não pára, o trânsito de sempre na Av. Faria Lima, parada! O jogo de futebol não pára. Jogo no Morumbi, quanta buzina; sentido contrário. Ele está com a camisa suada do trabalho, não! “Preciso passar em casa. Preciso me trocar”. Buzina, batida, farol quebrado. E já são mais de 7!

¬ -- Mais de 143 km de tráfego lento na cidade de São Paulo. – anuncia o rádio em voz quase fúnebre.

Onde estão os atalhos? Os caminhos que ninguém conhecia 10 anos atrás? Trânsito maldito; ele morre de medo de atrasar. Mais uma vez. Ele finge esquecer, mas só está com esse medo terrível porque nos últimos 3 anos quem chegou por último foi ele, quem levou bronca foi ele. Foi ele quem rezou a Brachot.

Lembrou-se da primeira vez em que escondeu a mazah, era homem feito, 13 anos e já era tempo de esconder a mazah. Naquele tempo também atrasava, mas porque jogava bola noutra esquina, jogava bola sem lembrar do jantar. Era puxão de orelha, briga atrás da porta, promessas de nunca mais fazer, e sorrisinho maroto de quem sabia que no ano seguinte tudo poderia se repetir. Afinal, bronca viesse, sempre havia chocolate ou balinhas esperando por ele, nas mãos calejadas e sorridentes do avô. Nas mãos de sabedoria, referência e história; a mão que representava o primeiro tronco da árvore genealógica da família no Brasil. Essas mãos se cruzavam com as de quem fazia o cheiro bom do jantar, de quem - com tempo de sobra – preparava, desesperada, o jantar. Com outras mãos de sabedoria, sorridentes, outro tronco da árvore genealógica familiar.

Pensando em tudo isso, chegou a deixar rolar uma lágrima; a lágrima confundiu-se com o suor de nervoso, o suor que antecedia o atraso. Virou à direita e entrou na Gabriel. Ainda nas lembranças, quando prima Cecília estava diante da porta, com o novo namorado. Prima Cecília sempre fora seu amor secreto, sempre achara que com ela poderia se casar. Aquele homenzarrão de 2,30m de altura – exagero de criança – com cara de artista de cinema, gel no cabelo e sorriso de lado. Contagiou a família toda com sua boa fluência em idishe, piadas pra lá e pra cá. O garotinho nem imaginava que um dia, ainda, pudesse ter amor da vida e até namorar outras garotas. Nem imaginava que se atrasasse mais uma vez. Calma, mais algumas ruas e já estaremos lá!

O telefone celular toca estridente no banco do passageiro, é Duda insistindo para um happy hour. “Oi, cara, hoje não vai dar. É Pessach! O quê? Não é exatamente a páscoa, bom, depois te explico, abraço.” Duda é mais um daqueles que acha que Pessach é a páscoa do povo judeu. Mas a verdadeira questão é que ele, nosso protagonista, também não sabe explicar direito a Duda o que é o Pessach, senão a comemoração judaica contemporânea à páscoa cristã. Ele sabe que as razões pelas quais ambas as religiões comemoram são diferentes, claro, um dia fizera Bar Mitzvá. Porém, o verdadeiro motivo, ou melhor, a verdadeira história para que essa comemoração se realize ano a ano é na verdade um grande mistério para ele.
Nesse longo pensamento sobre o motivo real do Pessach, o carro estacionou. Não mais no meio da rua, mas em uma vaga da garagem, enfim! A corrida para o elevador, a corrida para o banho, as roupas jogadas ao chão. E a dúvida permanecia; o anseio pelo jantar, também. Sabonete, shampoo, toalha, camisa azul marinho e kipá bordado, a kipá dos 13 anos. Ainda bem que a casa da tia estava a alguns quarteirões! Meteu-se no carro, encontrou vaga na rua; tudo conspirava a seu favor!

- Lá está ele, mais uma vez atrasado! – Diz a tia com um sorriso sem conseguir disfarçar.
- E aí, meu, estava jogando bola de novo? – O tio e sua ironia de sempre. Dando um tapinha em seu ombro.

Ele cumprimenta a todos. Ufa! Dessa vez ele se safou, há mais dois atrasados para o jantar. Pega uma taça de vinho kosher com cheiro doce de sempre, dá um golinho educado e deixa de lado, na mesinha de centro. Dessa vez é ele quem traz chocolates de presente aos sobrinhos, e mais uma vez, depois de muito tempo, é ele quem esconde a mazah. Chega de fininho perto de seu pai e pergunta, como quem não quer nada:

- Pai, me conta uma coisa, Pessach é a data em que comemoramos a libertação de nosso povo do Egito, certo?
- Onde estão aqueles livrinhos que explicam as comemorações judaicas que eu te dei, filho?
- Ah, pai, não deu tempo de ir pesquisar, por isso vim te perguntar, né.
- Bom, o motivo você vai pesquisar sozinho quando encontrar seu tempo, mas te digo uma coisa: o mais importante do Pessach é estarmos todos juntos, celebrando o fato de termos conseguido chegar até aqui e podermos nos relembrar de tudo o que foi preciso para isso se realizar.

Os dois se abraçam em um ato de carinho, queixo apoiado no ombro do outro e tapinha no peito emocionado. O cheiro de chrein e de pepino azedo. Alguma carne no forno já pronta para ser servida no jantar.


*Pessach é uma data comemorativa do calendário judaico. (Para quem não entendeu)

Quinta-feira, 14 de Maio de 2009

Conto de Noite de Final

Abriu os olhos remelentos e cheios de dúvida. Abriu-os como se tivesse os abrindo pela primeira vez em tantos anos de congelamento moral absoluto. Abriu também seus braços para um aconchego maior do que poderia fazer sozinha. Abraçando seu amigo, sentiu cheiro de perfume importado, o cheiro que não sentia há tantos anos.

Fez-se o abraço de maneira tal a criar uma cena homérica, espantosa. E então todos em volta deram seus goles engasgados em suas bebidas e voltaram a mastigar o amendoim. Era dia de final de futebol, a cidade toda parada para ver um time detonar o outro, telões pregados nas paredes do bar, gritarias, tumulto e adoração. Ela abrira os olhos e não vira futebol. Abraçara seu amigo e sentira cheiro de perfume importado. Voltou-se à mesa para se afogar em conversas mundanas. Trabalho, passeios, amigos, cinema e coisa e tal.

Os garçons não davam conta de tanta gente no recinto. Os assuntos não davam conta de tantas pessoas na mesa. Ela não dava conta de tremenda alegria. Foi-se um copo, foi-se outro e tantos outros mais. Palavras atravessadas, mas não maldosas, atravessadas no sentido fonético. Palavras tortas de tantos copos que se foram. O jogo caminhava sem dó, perdesse alguém um só instante, a emoção poderia ser ainda maior. O goleiro defende o pênalti e a cidade toda ecoa. O abraço fora maior do que o pênalti defendido. A saudade era ainda maior.

Fim de jogo e alegria para tantos; para outros, a frustração. Mas não tem problema, futebol tem todo ano, em um próximo o outro time ganhará e tudo ficará bem. Há outras coisas que parecem não ter volta, que não parecem ter como voltar. Respiros profundos e dia seguinte de trabalho, boa parte se despede com suas gravatas de lado, andar torto e cabelo bagunçado.

Noutro canto do bar, uma moça atordoada. Rosto cansado de quem não dormia há meses; mas na verdade, era rosto de tristeza. Poucos entenderam, seu time, enfim, havia ganhado, mas queria ela poder ter sentido o cheiro de perfume importado. Seus olhos remelentos não se abririam dessa vez.

Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

A História do Homem que Nada Adorava

Ele acordou cedo, dia ainda escuro. Cedo porque era trabalhador. Desses de dar orgulho em mãe e pai. Era homem dono de si e de tudo o que possuía. Era engenheiro trabalhador, de multinacional escandinava. Espero que ele não ouça essa história.

Acordou cedo mas era sábado, o despertador se confundiu. Acordou, levantou, deu bronca no despertador e voltou a dormir. Essa noite sonhou com andaimes, nada muito promissor. Dormiu toda a manhã, pisou em andaimes por todo esse tempo, acordou e almoçou. Recebeu depois ligação de um amigo para ir a uma festinha de formatura qualquer. Era solteiro e aí sim, sonhou com algo promissor. À noite, arrumou-se, com aquela mesma roupa de toda formatura, de todo rapaz em toda formatura. Terno preto, camisa branca, barbinha mal feita e sapato social. Uma graça.

Como de praxe, bebeu, bebeu, bebeu, alegrou toda sua timidez e foi se aventurar. Encontrou menina bela, deu bitoca e coisa e tal. Trocou telefone e "até mais".

Não a viu na primeira, nem na segunda, nem na terceira semana depois. Ele não tinha, não podia, não conseguiria jamais ligar. Quando ela se manifestou, encontraram-se numa festa estranha. Ela não o reconheceu, ele a reconheceu. Reconhceram-se, enfim, e foram dialogar:

Ela "Eu adoro essa música!"
Ele "É legal."
Ela "Aliás, eu adoro essa banda e o primeiro álbum que lançaram em 94 e adoro muito também o clipe dessa música, você já viu?"
Ele "Não, não vi não."
Ela "Puxa, você tem que ver, você vai adorar!"
Ele "Sabe...? Eu não adoro nada."
Ela "Que? Comassim!?"
Ele "É, eu não adoro nada."
Ela "Mas... Nem... Sushi?"
Ele "Não!"
Ela "Hamburguer?"
Ele "Não."
Ela "Gente, mas por quê?!"
Ele - profundamente angustiado "Acho que porque gosto muito de muita coisa."
Ela "E isso te faz não adorar nada?"
Ele "É."

O diálogo ficou marcado, o rapaz apaixonado; e a tal menina? Fugiu.

Domingo, 5 de Abril de 2009

Crônica de Bar

Uma taça de vinho em mãos e algumas palavras jogadas ao acaso. É lógico que o vinho não era da melhor qualidade, um merlot, no máximo. Aquele que pudesse confortar seu bolso sem um piripaque financeiro no fim do mês. Palavras ditas sobre política, cinema, e aquele mesmo blá blá blá de sempre. As mesmas palavras jogadas ao acaso da última vez. Não sei bem porquê os outros da mesa bebem cerveja, ninguém o acompanhou desta vez no vinho. Tudo bem, pelo menos é cerveja Argentina; ainda gera aquele certo glamour.

Um da mesa ao lado se levanta, com ar de “bebi demais”. É claro que sim, qualquer bar em qualquer região de São Paulo serve qualquer tipo de freqüentador. Dispõe em seu recinto gentes de todas as formas e todas as formas de se beber. O que se levanta tem um cheiro incondicional de álcool envelhecido, uma cachaça tradicional, de Minas ou da Bahia; alguma cachaça tradicional. O protagonista entorta a sobrancelha, arrisca um sorriso cínico e joga as palavras a seus colegas “lá vem mais um sermão de bar.” É claro que ele estava certo: lá veio mais um sermão de bar.

“Porque o Brasil não sabe como se comportar. Porque Cuba não deu certo. Porque a política mundial não dá em nada, é tudo uma grande palhaçada” e mais blá blá blá. Pelo menos, ele tem coragem de compartilhar sua opinião tão indigesta e tão, entre aspas, polêmica, para se manifestar. O bar inteiro o observa com mais sobrancelhas entortadas e sorrisos cínicos. “Pobre tolo, nem sabe o que está falando.”

Cita sociólogos memoráveis, cita alguma informação retirada de um jornal. Só faltava uma lousa ou um power point para acompanhar seu ilustre discurso. Do outro lado, há um casal, também já um pouco alterado, discutindo relação. Para eles o discurso profano é plano de fundo para uma discussão intensa sobre como se comportam um com o outro e com o resto do mundo. Um jeito um pouco mais prático de talvez, quem sabe, se relacionar. O ex-namorico da moçoila passa por trás, para compor o plano de fundo. Isso desperta uma gargalhada unilateral. “Você sabe que eu gosto muito de você, e você sabe que eu penso o dia todo em você.” Ela sabe de tudo isso, e sabe que também nunca se deixaria envolver naquela situação tão frágil e peculiar. Pouco importa a situação em que esses dois se meteram; agora o que realmente importa é que o plano de fundo toma lugar, vira personagem primário. O chatão do discurso político, arriscado próximo vereador de bar irrita o casal até mais do que seus problemas tão profundos e tão pegajosos. O discurso desse rapaz – digamos assim para não ofender ninguém –torna-se o centro universal das atenções do bar.

O bebedor de vinho, com gravata borboleta, passa ao lado do casal e dá uma risada um pouco alta, risada insistente para alguém comentar com ele a cena que estão presenciando. É exato: a moçoila comenta em voz, com todo seu sarcasmo – para escapar de mais palavras acusatórias: “Agra só falta falar de religião e futebol.” Todos riem e voltam ao seu papel inicial.

Segunda-feira, 30 de Março de 2009

Crônica do Atraso

Esta é uma história real.


Ela vem correndo, ligeira, subindo ladeira; as coisas da mão caindo por todas as partes e a força de tentar correr e ao mesmo tempo segurar. A sandália machucando o pé pequeno e sem equilíbrio. Acordara pouco mais tarde do que o costume, o desperdador esqueceu de tocar. É mentira, o despertador lembrou-se de tocar, quem esqueceu foi ela. Esqueceu-se de acordar. Foram 15 minutos de atraso, 15 minutos responsáveis pelas coisas caindo e pela sandália machucando.

Tomou café da manhã correndo, engolindo antes de mastigar. Pãozinho esquentado, manteiga amarelinha, derretendo, penetrando o miolo do pão. Coisa gostosa tranformada em energia, para conseguir correr atrás do "busão". Trancou a porta de casa e saiu sonolenta. Saiu pensando no que precisaria fazer, em mais um dia de trabalho, engolido antes de mastigar, transformado em energia. Sempre pegava o mesmo ônibus, linha verde. A verde claro, que ronda por um pouco da zona norte e zona oeste. Às vezes também preferia pegar outro, um da linha laranja, mas demorava mais pra chegar. Ela decorava as cores dos ônibus, às vezes alguns nomes; números jamais.

Com o cabelo despencando, desistiu de correr mais. Assim que desistiu de correr, foi andando tranquilamente, o atraso já era algo consumado, de qualquer maneira. Pôs-se em cima da ilhazinha. Aquela que fica em um cruzamento, uma ilhazinha de concreto trivial. Olhou para o lado esquerdo e viu o gigante verdinho chegando. Em seguida, viu o gigante verdinho partindo. Estava ainda em cima da ilha e nada mais poderia ser feito, a não ser esperar o próximo. Para sua surpresa, o motorista do ônibus a conhecia muito bem. Sabia de seus costumes matinais. O de pegar o verdinho para ir ao trabalho. Sabia tão bem sobre essa rotina, que ao passar pela ilhazinha - menina posta ao lado direito do ônibus - gritou "Tcha-au!", acenando confidentemente à mocinha, fazendo-a se arrepender de sua preguiça e seu atraso mandão.