Desde pequena o medo sempre esteve presente na minha vida. Acredito que eu não seja parte de 0,3% da população mundial, mas de quase 99,87%. Ou seja, seguramente, não sou uma exceção. Mas como nunca fiz um estudo comparativo, sei dizer sobre mim, meus medos e suas peculiaridades.
Meus medos fazem parte de um coletivo, de uma massaroca mental sem algum medo específico em si. Terapia? Não, obrigada, tenho medo. Quando eu era pequena - pela minha memória, que, perdoem-me, receio eu que esteja cada vez mais alterada e estranha - eu tinha a cada ano um objeto de medo bem específico. Em um amo eram vampiros, no outro, esqueletos e assim em diante. Eu, ao me deitar para dormir, pensava "será que quando eu tiver 10 anos terei ainda medo de esqueleto?" meus medos tinham prazos. Prazos que, pelo que me consta, eram cumpridos. Aos 10 anos eu não temia mais esqueletos, naquela idade eu já estava mais afetada pelo que parece real ao nosso redor: ladrão. Tinha medo de ladrão e tinha a ilusão de que se eu fizesse um discurso bonito, poderia salvar não só a mim, minha casa, meu cão e minha mãe, mas a todos que teriam, supostamente, os que haviam escolhido pelo mal caminho. O sonho americano do discurso do final do filme, que salva a pátria e toda a nação.
Toda noite, o discurso ficava mais homérico. Aos 10 anos, eu escolhia argumentos realmente "viáveis" para convencer um ladrão de que assaltando ele não teria o mesmo prestígio de ser um trabalhador honrado com um salário mínimo por mês. E não era só conscientemente que os discursos se discorriam. Eles vinham também em forma de sonhos, nos quais eu aparecia como Joana D'arc e tinha o objetivo de transformar a sociedade. Ok, sonhos de heroismo a parte, meus medos continuaram sempre sendo os burgueses e usuais.
Na adolescência, o medo da aceitação. A feiura me incomodava, me incomodava demais. Eu não só era a mais branquela da escola, como também era vesga e tinha meu rosto em uma espinha. Mas calma, não se assustem, nunca fui excluída de grupos por causa disso. Sempre tive muitos amigos e conseguia - tranquilamente - ter um grau de popularidade; logicamente, não muito com os garotos. Mas essa é uma outra história, que resulta em um final feliz com tratamentos, cirurgias e auto confiança - quase - recomposta.
Hoje, aos 23 anos, virei uma pessoa extremamente medrosa. Voltei a sentir meus medos infantis e voltei a dar prazo aos meus medos. Medos infantis de quê? De ataques zumbis, conspirações alienígenas, conspirações governamentais, síndrome de Show de Truman, fantasmas, etc. Além desses, também sou assombrada diariamente (ou melhor, noturnamente, uma vez que os medos aparecem à noite) por medos de "nossa época" como doenças, sequestros, assaltos, solidão, perda de emprego e essas coisas que todos já estão cansados de temer também.
O fato é que, neurótica como sou, alimento diariamente meus medos. Dando um potinho de ração todas as noites para que eles possam continuar a me afligir para sempre. Os discursos e argumentações para salvar - não mais ao mundo mas a mim mesma - voltaram também. Hipóteses confirmadas por fatos aleatórios, barulhos e flashes que acontecem na minha cabeça, memórias deturpadas, assombrações diárias e úlcera. Tudo isso faz parte dos meus medos.
Alguns diriam que eu penso demais. Mas se ser é pensar, e pensar é ter medo, talvez o medo seja o sentimento mais íntegro do ser humano. E, filosofias a parte, deixo aqui meus pensamentos, para que não me assombrem daqui a meia hora quando eu for dormir.
Eu tenho vergonha da Revista da Folha
2 dias atrás
